sábado, 10 de setembro de 2011

11/9 Cinismo S.A. -Carta aberta aos meus amigos humanistas


(Artigo originalmente publicado no site www.no.com.br, em setembro de 2001. Posteriormente, incluído em meu livro, Legalidade Libertária –Lumen-Juris, 2006.)

            Cada um de nós tem suas razões para se emocionar com o crime bárbaro do dia 11 de setembro de 2001, que derrubou as duas torres do World Trade Center e talvez tenha encerrado um capítulo da vida humana no planeta.  Alguns choram a perda de amigos, outros sofrem ante mais uma demonstração de insanidade, outros se horrorizam ante os prováveis desdobramentos catastróficos, em todo o mundo, e se solidarizam com a dor das vítimas e de seus familiares. 
Eu me sinto pessoalmente envolvido, porque tenho uma dívida de gratidão pendente.  No momento mais difícil de minha vida, em março de 2000, quando a segurança de minha família estava em risco, no Rio de Janeiro, fui acolhido pela cidade de Nova York -generosa, cosmopolita, progressista, anti-racista, anti-homofóbica e anti-misógina, a despeito dos vários episódios que traem esse compromisso.  Esses casos, essas traições, justamente por agredirem a sensibilidade pluralista dominante, causam indignação na opinião pública novayorkina. 
Meu irmão, cientista da área bio-genética, viveu 18 anos na cidade.  Poucos lugares do mundo acolhem a diversidade, a ousadia, a criatividade, a crítica radical, e os imigrantes de todas as cores e todas as procedências, com mais tolerância, com um espírito mais democrático.  Certamente, Nova York é a capital do capitalismo, matriz de tantas perversidades e injustiças, porém, aqueles que se identificam com a tradição da esquerda humanista devemos recordar que a cidade é também um símbolo talvez incomparável do respeito à diferença.
            Escrevo, portanto, com o coração.  E foi também com o coração que senti o segundo impacto, dia 11.  O primeiro foi a tragédia.  O segundo, a reação de tantos interlocutores e amigos, todos humanistas e progressistas, à tragédia.  A ruína dos prédios e o sacrifício de milhares de vidas suscitou uma bizarra onda de cinismo, difícil de descrever e, em todos os sentidos, de meu ponto de vista, absolutamente chocante.  Na falta de definição mais apropriada, diria que se trata de uma espécie de relativização do terrorismo.  Sua estrutura argumentativa é a seguinte: afirma-se posição contrária ao ato de terror e acrescentam-se algumas cláusulas condicionantes e qualificadoras: “mas, porém, contudo, apesar, todavia, no entanto, por outro lado”. 
Eis alguns exemplos, colhidos em conversas, durante os dias que se seguiram ao colapso das torres: “É uma barbaridade, ninguém pode aprovar o terrorismo, MAS o fato é que os Estados Unidos espalharam o horror pelo mundo e, agora, estão pagando a conta”.  “Realmente, um ataque assim violento contra pessoas inocentes é uma aberração, POR OUTRO LADO, os prédios atingidos eram emblemáticos do capitalismo e do imperialismo, portanto, apesar da crueldade do ataque, foi uma lição”.  “A mídia está fazendo o maior estardalhaço com esse caso, NO ENTANTO, aqui, bem ao nosso lado, milhares e milhares morrem todo dia, vítimas da miséria produzida pelo capitalismo, sob o patrocínio do FMI, e ninguém vê, ninguém diz nada”.
A lógica empregada por esses meus amigos, defensores dos direitos humanos, é semelhante àquela usada pelos críticos dos direitos humanos, que causam tanta revolta em meus amigos e em mim, quando declaram, por exemplo, a propósito do rapaz morto por policiais quando era transportado para a Delegacia, depois do seqüestro do ônibus 174: “Está errado matar, ainda mais sem julgamento, MAS não nos esqueçamos de que o rapaz que vocês tratam como vítima do crime policial é o mesmo que, instantes antes, assassinou aquela pobre moça”.  Ora, dizemos nós, os defensores dos direitos humanos, um crime não justifica outro e essa relativização, representada pelo MAS, no fundo, minimiza o crime policial, reduz sua gravidade, dissolve sua realidade moral e legal, e termina por justificá-lo, reproduzindo a lógica que impulsionou o próprio ato criminoso dos policiais.  Nesse sentido, dizemos, aquele crítico dos direitos humanos, ao relativizar o crime policial, desculpa-o e se converte, assim, em seu cúmplice moral, estimulando a difusão dessa prática criminosa.
Aproveitando o mesmo modelo com que criticamos a relativização da violência, gostaria de dizer o seguinte aos meus amigos: o crime do rapaz, seqüestrando e matando uma inocente, não justifica, nem torna compreensível, perdoável ou menos bárbaro o crime dos policiais que o mataram por asfixia, enquanto fingiam conduzi-lo à Delegacia.  Todos nós, humanistas, sabemos disso.  Daí nossa indignação com os discursos dos que relevam a violência policial, tomando-a como vendetta justificável.  Repudiamos com veemência esse método de troca, de intercâmbio de vidas e violências, cuja base é a suposição de uma intercambialidade, de uma comensurabilidade essencial, subjacente aos atos criminosos. 
Do mesmo modo, o melhor de nossa tradição humanista exige de nós, agora, diante da tragédia americana, um posicionamento firme, incondicional, absolutamente claro, inteiramente liberto de ambigüidades: a violência terrorista é inaceitável e merece o mais veemente e incondicional repúdio.  Nenhuma consideração complementar, nada reduz ou relativiza sua natureza criminosa e desumana.  O terror é a face mais brutal da barbárie.  Uma civilização, regida pela paz, não se edifica sobre a barbárie.  Esta só gera ódio, escalada de violência, irracionalidade e totalitarismo.
Esse mesmo modelo argumentativo nos conduz a uma outra conclusão: nada justificaria o sacrifício de inocentes, nada justificaria retaliações americanas contra populações civis, exatamente pelas mesmas razões que nos levaram a concluir que as injustiças da globalização neoliberal não justificam o terrorismo. 
Por isso, creio que os humanistas e pacifistas de todo o mundo, os defensores dos direitos humanos de todo o planeta, têm, hoje, diante de si, um desafio sem precedentes: ou seremos capazes de agregar apoios políticos e mobilizar as sociedades civis, em escala mundial, em favor de um pacto contra o terror e pela paz –pacto fundado no repúdio completo, radical e incondicional ao ataque do dia 11 de setembro-, ou o mundo se tornará pior do que é: será atravessado pela espiral das retaliações; países serão sacudidos por intervenções militares; o terror passará a usar armas químicas no interior dos Estados Unidos, contra alvos civis não-estratégicos e desprovidos de simbolismos especiais; a direita permanecerá no poder por uma década, nos EUA; a indústria armamentista e seus derivados passarão a ser o centro dinâmico do capitalismo internacional; os preconceitos raciais e religiosos alcançarão patamares inusitados; a perseguição dos imigrantes atingirá proporções inauditas e a cultura humanista, democrática e de inspiração socialista, sofrerá um revés talvez irreparável. 
O primeiro passo, meus amigos, o passo que está ao nosso alcance, já, é o abandono do cinismo.  O segundo poderia ser a elaboração de uma proposta, no Forum Social Mundial, que Porto Alegre abrigará, em janeiro de 2002, a ser submetida a todas as entidades, partidos e Estados, efetivamente comprometidos com os direitos humanos e a paz.  Uma proposta que se se pudesse traduzir na celebração de um pacto político transnacional contra os imperialismos belicistas e o terrorismo de todos os matizes.  Assim como a questão democrática foi um divisor de águas nas esquerdas mundiais, hoje, a problemática do terror divide o campo ideológico e identifica os protagonistas, lançando-os ao novo e mais terrível capítulo da guerra dos mundos, que deixou de ser fria com a explosão de Nova York.  É tempo de tirar as máscaras e deixar claro de que lado estamos.


segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O Brasil pode ser mais legal?


                                                                                        em homenagem ao mestre Zuenir Ventura

            Os organizadores do Café Literário, da Bienal do Livro, por intermédio do coordenador, Prof. Italo Moriconi, me convidaram para responder à seguinte pergunta: “O Brasil pode ser mais legal ?” Para minha alegria, fui brindado com o privilégio de contar com Zuenir Ventura como parceiro de mesa e com a mediação de Marília Martins.
            Pensei em discorrer sobre os desafios da legalidade, ou melhor, do respeito à legalidade, em uma sociedade profundamente desigual, em cujo cotidiano pesa o fardo de tantas violações aos direitos, inclusive por parte do Estado. O dilema se revela ainda mais difícil quando constatamos que entre as desigualdades, destaca-se a do acesso à Justiça, que começa com a abordagem policial e termina com a prolatação da sentença e o cumprimento da pena.
            Como esperar zelo unilateral por uma legalidade cuja afirmação tem sido reiteradamente desequilibrada, assimétrica, despudoradamente iníqua? Em outras palavras, como amar, praticar e defender uma justiça injusta, não na letra da lei, mas na substância de suas aplicações? E ainda, como prezá-la sem conhecê-la, sem compartilhar valores, sem compreender seus mecanismos, sua necessidade, a história política de sua construção?
            Desse modo, seguindo essa via argumentativa, eu teria oportunidade de trazer meu novo livro, Justiça, para o debate, uma vez que se dedica a abordar esses temas. Entretanto, se o fizesse deixaria de lado parte do campo semântico coberto pela pergunta. O adjetivo legal traz consigo outra acepção, distante do universo da Justiça. Significa também bacana, positivo, atraente, prazeiroso. A tendência natural de quem viveu a vida profissional quase toda na academia é desprezar este segundo recorte semântico e focalizar o primeiro, dotado de dignidade intelectual superior. Legal no outro sentido sequer é palavra nobre que mereça ingressar em discursos formalmente elaborados. É uma gíria, expressão vulgar, desprovida de profundidade, seriedade, compromisso com a lógica da ordem conceitual.
            Muito bem, se é assim, viremos do avesso expectativas, porque este é o primeiro movimento que deve fazer quem se disponha a pensar com liberdade, crítica e criativamente, desnaturalizando o senso comum estabelecido, ainda que esse consenso tenha se firmado em esferas distintas e poderosas, não importa se o poder em causa é simbólico, político ou econômico (até porque os pólos tendem a se sobrepor, circulando no mesmo campo magnético). Afinal, o consenso --aristocrático ou plebeu-- costuma ser o solo dos preconceitos.
            Tratando, então, das possibilidades de um Brasil mais legal, no sentido popular, eu diria que, sim, podemos ter esperanças e ser otimistas, desde que reconheçamos que falta muito para alcançar o patamar desejável. O que justifica o otimismo? Temos valores norteadores, alguns métodos e o tipo ideal regulatório para orientar nossa Bildung, ou seja, nossa Paideia laica, nossa construção social, cultural, psíquica, simbólica, ética e política –inclusive, legal na acepção jurídica.
            Temos tudo isso e a prova incontestável é a obra de Zuenir Ventura, da qual não devem ser excluídas a persona e a performance. Há obras para as quais as trajetórias e as posturas públicas dos autores são irrelevantes ou impertinentes, ainda que possa haver interesse em conectar essas dimensões para certo tipo de pesquisa. Entretanto, a posteridade reverencia Ezra Pound e Céline, apesar deles e de suas opções ético-políticas. Para apreciar as obras, nesses casos, é preciso afastá-las de seus autores e tratá-las em sua especificidade e autonomia. Talvez não seja o caso de Jack Kerouak, cujo destino gauche e tumultuado foi constitutivo da intervenção estético-cultural que produziu. Certamente, não foi o caso de Sartre, enquanto escritor e dramaturgo. Como separar o filósofo e o militante da obra, uma vez que foi regida pelo impulso de desdobrar a militância e de comprovar as teses filosóficas?
A obra de Zuenir compõe-se de livros, crônicas e intervenções públicas diversas, as quais também se realizam pelo exercício de funções estratégicas em importantes veículos de comunicação. Meu propósito não é ambicioso. Não pretendo nem tenho condições de analisar todo esse riquíssimo conjunto, em sua multiplicidade, tarefa que demandaria longa pesquisa e a mobilização de diferentes recursos interpretativos. Gostaria simplesmente de lançar algumas pistas, na expectativa de que sirvam de inspiração para projetos de estudo mais ousados.
Destaco apenas dois componentes do universo criativo e crítico-reflexivo de Zuenir: por um lado, o papel instaurador do livro Cidade Partida, nas mais diversas áreas culturais e políticas, e não só por seu admirável e inovador conteúdo, mas por sua forma e pelo método de sua construção; por outro lado, o efeito “paidêutico”, formador e etico-esteticamente matricial, da série de crônicas publicadas em O Globo.
No Globo de 4 de setembro, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em sua coluna, distingue artigos e crônicas, articulistas e cronistas: “Espera-se de um articulista que argumente lógica e concatenadamente sobre um assunto qualquer, Já o cronista pode divagar”. A divagação, aqui, define-se como associação de ideias –ou relatos, imagens, valores, ou mesmo argumentos-- indiferente à lógica argumentativa, à concatenação. Não concordo. De meu ponto de vista, há modos distintos de manifestação da lógica argumentativa e há modalidades lógicas não argumentativas, nem por isso menos rigorosas, exigentes, sofisticadas e complexas. Além disso, questionaria a circunscrição de unidades, quando cada crônica se inscreve em uma sequência, sobretudo quando a sequência alcança profundidade histórica e a voz autoral se radica em um terreno político-cultural validado por um conjunto polissêmico de atores e intervenientes. A voz legitima e suporta a gratuidade (real ou aparente) do que é dito. O nome do autor que assina a crônica a inclui em um campo de valor denso. O estilo, a forma, a opção estética –não nos deixemos iludir pela simplicidade franciscana do coloquialismo—caracterizam um estilo, vá lá, mas também uma personalidade: a substância que os leitores atribuirão à persona, personagem público que se constitui, progressivamente (mas não de maneira linear) ao longo da série de intervenções (às quais se articulam outras modalidades de intervenção pública –posturas e opiniões, ou formas de enunciá-las).
Essa constelação, formada por persona, performance, ditos/escritos (crônicas), completa-se com a publicação dos livros.
Em uma primeira aproximação, o que seria possível extrair como a síntese desse complexo? Zuenir Ventura nos ensina por palavras, gestos, silêncios e obras, sobretudo pela forma com que todos esses elementos se manifestam e se harmonizam, que a construção de uma sociedade justa e democrática depende do exercício de uma certa cidadania. E que contribuir para sua afirmação e difusão depende do estabelecimento de modelos práticos, de referências e ancoragens identificatórias, de fontes de inspiração que sirvam também como bússolas de orientação. No entanto, orientação não significa imposição de antolhos ou camisas de força, que seriam o contrário da emancipação dos sujeitos, condição necessária para que se convertam em protagonistas da vida social. Zuenir nos propõe a cidadania marcada por um estilo, uma estética, um método e uma disciplina. Esses ingredientes, em sua vida-obra, correspondem à humildade com que o espírito crítico se manifesta e à acuidade com que a reflexividade crítica se cumpre. Humildade, neste contexto, significa auto-questionamento, reconhecimento da própria finitude, disposição corajosa de relativizar convicções, de resistir ao congelamento de conceitos em preconceitos, de resistir aos atrativos da resignação –aquela resignação que naturaliza o que se vive, que apazigua os ânimos e consagra, em dogmas, as crenças. Por isso, Zuenir passou a representar (em todos os sentidos do verbo) a humildade desassossegada da inteligência. Não qualquer uma, mas a inteligência que foi longe o suficiente para rever-se do ponto de vista da finitude, o que, por sua vez, recomenda um determinado horizonte ético para o agente social que deseja transformar-se em cidadão.
O próximo passo deveria ser a análise de algumas crônicas para demonstrar a hipótese, acima exposta.
O passo subsequente nessa investigação seria o exame do livro Cidade Partida e a aproximação entre seu conteúdo, sua forma e seu método, e a prática ético-estético-política do cronista, pela mediação da persona que o construiu.
Espero ter a oportunidade de prosseguir. Gostaria de contrastar esse complexo de opções de Zuenir com o contexto mais amplo da mídia nacional e dos discursos predominantes na internet brasileira, onde reina (evidentemente com exceções e contra-tendências) a afirmação de uma posição narcisicamente idealizada do sujeito que sabe, que adota crenças e valores inquesionáveis, cuja moralidade é indubitavelmente superior e cuja perspectiva interpretativa é antes acusatória do que analítica, de tal modo que os objetos de sua cólera moral e de seu desprezo intelectual degradam-se em dejetos imprestáveis.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Pronunciamento do senador Lindbergh Farias sobre violência policial e a comissão da verdade, em homenagem à memória da juíza Patricia Acioli


Pronunciamento do senador Lindbergh Farias

(Brasília, 16 de agosto, 2011)

Sr. Presidente,
Senhoras e senhores senadores,

            Confesso que estou desolado com o assassinato brutal e covarde da juíza Patrícia Acioli. Vinte e um tiros a atingiram em frente à sua casa. Seus dois filhos, entrando na adolescência, ouviram as rajadas e jamais esquecerão.
E nós? Ouvimos? Ouvimos os 21 ecos do ponto final imposto a uma história de vida exemplar?
E nós? Esqueceremos? Esqueceremos o sacrifício de uma jovem extraordinária, mártir da Justiça brasileira? Será essa morte mais uma entre tantas registradas nas estatísticas oficiais?
Como não podemos reparar o irreparável, o que nos resta fazer? O que ainda está a nosso alcance? Creio que seja meu dever, nosso dever, ouvir esses 21 tiros, escutar o que eles nos dizem para jamais esquecer, para render homenagem à memória da juíza Patrícia Acioli, para preservar sua memória e honrar sua luta, levando-a adiante. Cabe aos que compartilhamos os ideais de Patrícia, aos que nos comovemos e nos solidarizamos com sua família, cabe aos que estamos comprometidos com as causas mais elementares da justiça transformar a derrota em vitória, o retrocesso em avanço, a tragédia em marco histórico, em ponto de mutação que irradia a energia para um recomeço.
Com esse espírito, tentei escutar sob cada um dos 21 estampidos a voz de Patrícia, a voz da mulher de fibra que não emudecerá, e as lições que talvez sejam o seu legado, porque podem ser deduzidas de sua linha de conduta.
(1) Para construir um país é preciso olhar para a frente e acreditar, confiar, não perder a esperança. Essa tese me foi suscitada pela juventude de Patrícia, uma heroína precoce. Tudo em sua biografia remete ao futuro: ela era movida pela confiança, que se alimentava antes na esperança do que no diagnóstico realista do presente. A juíza Patrícia demonstrou até o fim plena confiança na possibilidade de construção de uma ordem social justa, que lhe permitisse transitar sozinha, dirigindo seu próprio automóvel, em segurança. Ela vivia esse futuro desejado para antecipá-lo, tornando-o real em suas ações e, assim, ajudando a construi-lo como uma profecia virtuosa que seu auto-cumpre.
(2) Olhar para a frente, confiando, não pode ser apenas um ato de vontade sem lastro no passado, sem base de sustentação que atribua consistência aos compromissos com o futuro, aos passos em direção ao futuro. Isso vale para os indivíduos e as sociedades. A psicologia e a psicanálise demonstraram que não é saudável negar o passado mesmo que as intenções sejam evitar o sofrimento e construir um futuro positivo. Para que o trauma seja superado, é preciso fazer o luto. Caso contrário, a realidade negada e o sofrimento recalcado retornam sob formas patológicas e desestruturantes. Para construir o futuro, é necessário olhar o passado nos olhos, ainda que o preço a pagar seja doloroso. A juíza Patrícia Acioli, mesmo sendo reconhecida pela compaixão, sabia ser rigorosa na cobrança de responsabilidades. Ou seja, ela nos ensinou a olhar para trás. Nunca se negou a examinar o passado e fazer o balanço das feridas.
(3) Encarando o passado, a juíza Patrícia Acioli sempre julgou com equilíbrio, sem impulsos vingativos, mas nunca renunciou ao rigor quando julgava e distribuía sentenças, apontando responsabilidades. Ela nos mostrou que rigor e compaixão podem conviver, assim como a admissão da verdade com a vontade de restaurar laços e cooperar.
(4) As teses anteriores funcionam como premissas para uma primeira conclusão, de consequências importantes para a política brasileira: sem o momento de verdade, não pode haver reconciliação efetiva, produtiva, saudável. Como também nos ensinaram o ex-presidente Nelson Mandela e o reverendo Desmond Tutu: verdade e reconciliação são as pedras de toque de uma transição democrática completa e consistente. Faltando uma delas, o edifício desmorona.
(5) Patrícia Acioli era de uma geração que chegou à vida adulta e ingressou no mundo profissional quando a Constituição de 1988 estava sendo elaborada e promulgada. Enquanto operadora do Direito, defensora pública e depois juíza criminal, ela era filha da Constituição. Beneficou-se das conquistas democráticas, às quais sempre foi fiel em sua prática institucional. Sua vida como juíza não pode ser contemplada senão nos marcos dessa moldura. O Estado democrático de direito não representou, portanto, uma circunstância ou uma escolha eventual, passível de substituição e adaptações. Nada disso. O Estado democrático de direito foi a segunda natureza de sua história profissional, a essência de seu compromisso com a carreira jurídica, o fundamento e o horizonte normativo e valorativo de seu engajamento. Mais uma lição: a democracia não é uma acomodação oportunista provisória ou um movimento tático, mas um engajamento estratégico, permanente, existencial e profissional, ético e político.
(6) A insatisfação contínua de Patrícia com a realidade com que se defrontava refletia sua visão prática e seu relacionamento com o Estado democrático de direito. A democracia não é uma panacéia, nem uma realidade estática, mas um processo sempre aberto e que demarca os limites em que os conflitos devem ser vividos, para que conduzam a superações sucessivas das deficiências porventura identificadas na realização dos valores constitucionais, e não ao sacrifício das conquistas e de suas condições de possibilidade.
(7) Deduzimos outro ensinamento implícito da juíza Patrícia Acioli, ao contrastarmos sua valorização das leis e da institucionalidade jurídica –amplamente expressa em seu desempenho-- com sua vigorosa insatisfação, manifestada na luta incansável e corajosa contra a brutalidade policial, contra a violência do Estado, e também traduzida em sua dedicação às causas dos mais pobres, daqueles que são mais vulneráveis a injustiças: a desigualdade no acesso à Justiça é uma das mais infames manifestações da desigualdade, em nossa sociedade. Combatê-la é dever de todo democrata.
(8) Outra lição implicada em sua sistemática recusa a resignar-se com as injustiças presentes nas práticas dos agentes estatais: a transição democrática brasileira não provocou um descolamento entre o Estado e a sociedade, por fazer o primeiro mudar em um ritmo que a sociedade não acompanhou. Ao contrário, o processo deu-se de um modo tal que estratos internos ao Estado não acompanharam o ritmo e a direção que marcaram as mudanças de outros estratos seus e da sociedade.
(9) Devemos ouvir a voz emudecida da juíza Patrícia e extrair a lição subjacente a seu esforço generoso e destemido de reprimir e condenar a brutalidade policial, as execuções extra-judiciais, rasgando as máscaras dos “autos de resistência”, e devemos atentar para a mensagem que ela nos envia por meio de seu combate a máfias e milícias, nas quais agentes públicos se envolvem em atividades corruptas, lesivas ao interesse público e violentas. Ela parece nos dizer: há algo de podre no reino da democracia brasileira; há algo de abjeto e inominável nos porões do Estado brasileiro; há cadáveres no armário e crimes ocultos, e uma corrente venenosa debaixo das construções maravilhosas de que nos orgulhamos –e com razão o fazemos, porque elas são de fato maravilhosas. O que, entretanto, não as impede de abrigar o avesso da ordem que elas edificaram e que, honradamente, simbolizam. Não se trata de armação ardilosa, voluntária, golpista. Não se trata de um jogo consciente e perverso. As duas coisas são inteiramente verdadeiras e essa contradição é o dilema que nos desafia: a transição política nos proporcionou o Estado Democrático de Direito mas, por algum motivo que resta investigar, nos legou também, subrepticiamente, seu antídoto, sua negação, uma dinâmica contagiosa que se alastra ante nossos olhos, mas sem que a identifiquemos, sem que a compreendamos, sem que reconheçamos sua gravidade, sem que tomemos atitudes compatíveis com o risco que ela representa para a saúde da democracia.
(10) A juíza Patrícia Acioli, por intermédio de sua obstinação civilizatória, levantou o véu e nos revelou o que resistimos a admitir: o antídoto, o veneno, a negação, o avesso do Estado Democrático de Direito é a violência perpetrada por estratos do próprio aparelho de Estado contra a cidadania, contra a Constituição.
(11) Nenhum país moderno, das dimensões e da complexidade do Brasil, está imune à violência policial, muito menos à infestação por máfias e outras formas de crime organizado. Por que, então, estabelecer conexões entre episódios criminosos e as condições em que se realizou a transição democrática brasileira? Primeiro: fenômenos semelhantes podem ter causas distintas sem cujo conhecimento as terapias não funcionam. Ou seja, terapias análogas nem sempre obtêm o mesmo resultado, mesmo que os alvos sejam similares. Segundo: não basta que os fenômenos sejam semelhantes; é preciso examinar a escala em que ocorrem, porque a quantidade altera a qualidade e pode refletir condições bastante diferentes. A vida e a morte de Patrícia nos ensinam: anos de trabalho dedicados a casos que continuaram se acumulando, sem nenhuma atitude definitiva do Estado e da sociedade. Houve 8.708 autos de resistência entre 2003 e 2010, inclusive, no Estado do Rio de Janeiro. Portanto, 8.708 pessoas foram mortas pelas polícias. Não se sabe quantas foram sumariamente executadas, mas os pesquisadores suspeitam que a maioria. Por fim, 21 tiros no tórax e na face da juíza: a assinatura corriqueira de milícias e grupos de extermínio vangloriando-se da impunidade. Um estrato do Estado contra outro. A legalidade constitucional encarnada na toga, vestida por uma mulher notável, entra em confronto com a arrogância armada da brutalidade desmedida. Os números do Rio e do Brasil situam a problemática da violência policial em patamar absolutamente excepcional. E a singularidade do caso brasileiro remete a uma pluralidade de causas, entre elas a forma pela qual transitamos, no Brasil, da ditadura para a democracia --destaco este ponto porque ele costuma ser negligenciado.
(12) Há outro aspecto importante que distingue a situação de nosso país, face à violência policial verificada em outros países, e face à incidência do crime organizado (isto é, daquele crime do qual participam agentes públicos, pois é esta a definição técnica de crime organizado) em outras partes do mundo. De novo, quem nos esclarece sobre esta questão é a performance pública da juíza Patrícia. A insistência com que ela, em suas sentenças e em suas atitudes, conclamava as autoridades a assumirem suas responsabilidades diante do descalabro, diante do descontrole das polícias, foi eloquente: o que diferencia o caso nacional é a indiferença do poder público à traição de que é vítima, quando seus agentes cometem crimes contra a cidadania, em particular quando aqueles aos quais incumbe defender a vida, os direitos e a segurança pública fazem o contrário, invertendo seu dever e seu mandato contitucional.
(13) Consideremos um exemplo recente para que não pareça que estou divagando. Sigo a inspiração da juíza, cuja prática foi a contra-prova da tendência predominante. Sua postura, pela excepcionalidade, confirma a regra. Em Nova Iguaçu, no dia 20 de junho deste ano, uma criança foi morta por policiais. Seu nome era Juan Moraes e seus pais tiveram de ingressar no programa de proteção às testemunhas, porque denunciaram os assassinos de seu filho. Por justiça e pela verdade, arriscaram a vida e sacrificaram a vida que levavam. No dia 6 de julho, autoridades da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro declararam à mídia que, a partir daquele momento, as mortes de civis em supostos confrontos com policiais passariam a ser investigadas, inclusive com participação da perícia. Todos os cidadãos sensatos ficaram perplexos. A polícia informava que passaria a cumprir seu dever. Em outras palavras: a polícia confessava que não cumpria seu dever. Mencionei o caso trágico de Juan, mas não estamos falando de um episódio. Repito o número escandaloso: foram 8.708 mortes em oito anos, somente no estado do Rio de Janeiro. A tese demonstrada é a seguinte: a indiferença não é uma inclinação eventual de uma ou outra autoridade. Pelo contrário, a indiferença constitui um padrão e corresponde, portanto, a uma política institucional. Ainda que ela se reproduza por força da inércia de culturas corporativas, a continuidade não seria possível se não houvesse ampla omissão e cumplicidade de distintos estratos.
(14) Patrícia Acioli nos conduz a duas grandes interrogações: qual a raiz histórica dessa assombrosa realidade, em que vemos estratos do Estado inteiramente descolados do discurso oficial, da norma legal, do compromisso constitucionalmente atribuído às instituições responsáveis? A persistência de Patrícia, que resistia, chocando-se contra a insistência das instituições policiais em preservar padrões comportamentais, cognitivos e valorativos herdados do passado autoritário, gera um atrito, cuja incandescência acende a luz da razão e suscita uma tese: essa herança cultural passou incólume pelas mudanças provocadas pela transição democrática. Certamente, a cultura profissional de que falamos (com seus componentes cognitivos, simbólicos, identitários, emocionais, valorativos, comportamentais) não nasceu na ditadura, mas deve a ela sua qualificação, no sentido negativo da palavra. O regime oriundo do golpe de 1964 absorveu acriticamente, e modernizou, o pior de nossas tradições autoritárias, racistas e violentas, que jamais haviam sido, na esfera policial, confrontadas diretamente, mesmo na democracia de 1945. Como chama a atenção a professora Sandra Helena de Sousa: a transição democrática que culminou com a promulgação da Carta de 1988 tampouco passou a limpo esse anacronismo, o que acabou por reificá-lo e convertê-lo em perverso atavismo institucional.
(15) A segunda interrogação deixa as raízes de lado e nos devolve aos dias de hoje: por que essa realidade assombrosa, mesmo tendo atravessado praticamente incólume o período das reformas institucionais, nos anos 1980, persiste, atualmente, em um Brasil tão profundamente diferente? A história profissional da juíza Patrícia Acioli, mais uma vez pelo efeito do contraste, ilumina a resposta: aspectos importantes da antiga cultura policial e alguns procedimentos arcaicos perduram porque são parcialmente compatíveis com determinadas expectativas e com certos valores de alguns setores da sociedade e razoavelmente funcionais. Observe-se que a funcionalidade não é completa, pois restam contradições, sobram resíduos, produzem-se externalidades, problemas e desfuncionalidades. Ou seja, geram-se efeitos negativos para todos, inclusive para os segmentos sociais referidos e para o exercício do poder do Estado.
(16) A tese que acabo de expor recoloca uma questão que já havia sido tratada, permitindo uma correção que enriquece e precisa a afirmação anterior: não só estratos internos ao Estado se descolaram e não acompanharam o ritmo e a direção que marcaram as mudanças de outros estratos seus e da sociedade. O mesmo é válido para certos estratos sociais, no plano da cultura política e dos valores cívicos.
(17) As duas respostas (a raiz histórica e a funcionalidade parcial) se complementam e, superpostas, conduzem a mais uma tese: a transição política brasileira, ao excluir qualquer procedimento que valorizasse a restauração da verdade, relativamente aos crimes do Estado, fundou o pacto de reconstrução unilateralmente na reconciliação, submetendo a memória dos fatos dolorosos ao regime da negação. A pura e simples negação equivale ao recalque e enseja a continuidade destrutiva da experiência traumática, o que vale para vítimas e algozes. O regime da negação afetou a cultura cívica, produziu efeitos sobre a cultura política e se estendeu para o conjunto do aparato repressivo da ditadura, alcançando, portanto, a problemática das polícias e das respectivas culturas institucionais.
(18) Não desconstituir moralmente os crimes do passado em um ritual de passagem, política e simbolicamente poderoso, implicou também não questionar com radicalidade moral os procedimentos policiais padrão. Tudo se agrava quando se tem presente que tais procedimentos, consagrados e modernizados pela ditadura de 1964, a antecederam –ou seja, estão profundamente arraigados.
(19) Desse conjunto de reflexões, suscitados pela trajetória exemplar da juíza Patrícia Acioli, surgem duas recomendações. A primeira: a comissão da verdade que será –eu espero-- constituída em breve deverá desempenhar não só um papel decisivo no que diz respeito ao restabelecimento da história real do Brasil, como também um papel estratégico para nosso futuro. A comissão da verdade poderá assumir o compromisso de inundar o Estado, em todos os seus estratos, em todas as suas instituições, com o espírito e a conviccão de que “nunca mais” nosso país vai tolerar o intolerável, resignar-se a conviver com o inaceitável. Nunca mais! Nunca mais, a barbárie. Foi esse o brado que ecoou na voz de Patrícia, em cada um de seus atos: “nunca mais”. Torturas, execuções extra-judiciais, grupos de extermínio, crimes perpetrados por agentes do Estado sob a cobertura da pusilanimidade: “nunca mais”. Esse “nunca mais” convertido em valor deve se transformar em modelo de orientação de comportamentos. E deve infiltrar-se nos estratos sociais que resistem aos valores democráticos, legalistas e humanistas.
(20) A segunda recomendação se refere aos mecanismos de controle da atividade policial. Parte substancial da insegurança pública é provocada por agentes do Estado. Sendo assim, sem prejuízo da necessidade de prevenirmos e reduzirmos a enorme violência praticada pela sociedade, impõe-se uma ação urgente e concertada das mais diferentes agências do Estado nacional, em suas diversas instâncias, para submeter a violência de seus agentes ao controle constitucional e democrático.
(21) Se os policiais brasileiros são desvalorizados, profissionalmente, se recebem salários indignos e formação inadequada, se trabalham em condições precárias e arriscadas, se atuam em estruturas organizacionais que inibem em vez de potencializar suas capacidades, temos de lhes oferecer alternativas e perspectivas de mudança. Pessoalmente, estou investindo nesse caminho. Entretanto, nada justifica que adiemos o confronto com essa questão dolorosa: o ovo da serepente tem de ser extirpado em benefício da sociedade brasileira, do Estado democrático de direito, da segurança pública, do respeito aos direitos e às liberdades, e em benefício dos próprios policiais, que merecem lugar de destaque na construção de um futuro mais justo e pacífico em nosso país. Pensando assim, pretendo apresentar em breve um projeto de Lei que revigore, aprimore e amplie os mecanismos de controle da atividade policial, apoiando o Ministério Público, o Judiciário, a Defensoria Pública e a sociedade civil, em seu esforço para reduzir os crimes perpetrados pelo próprio Estado. É preciso olhar menos para os desvios de conduta individuais e mais para os padrões institucionalizados e as responsabilidades superiores, nas instituições e nos governos. Assim como o calvário de Maria da Penha estimulou a luta das mulheres contra a violência, espero que o sacrifício de Patrícia Acioli nos inspire e nos mobilize. É o mínimo que lhe devemos para honrar sua memória.